sexta-feira, 31 de outubro de 2008
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Raio de Sol Castanho
Demorou mais ou menos uns vinte anos para descobrir a força dessa expressão.
Em meio a terremotos e vulcões, em meio a ciclones extratopicais e fim de semestre, eis que ela surge como um raio de sol castanho no tortuoso caminho feminino da tintura e do estrago.
Meu cabelo é “virgem”.
Derretam-se de inveja.
Em meio a terremotos e vulcões, em meio a ciclones extratopicais e fim de semestre, eis que ela surge como um raio de sol castanho no tortuoso caminho feminino da tintura e do estrago.
Meu cabelo é “virgem”.
Derretam-se de inveja.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
No Metrô
Muitas vezes procurei. Mas não, nada.
Nunca vi coisa que me trouxesse algum interesse sobre a boa e velha lata de sardinha, que vai e volta em linha reta, diariamente, umas dezenas de vezes.
É que os entediantes quarenta e um minutos entre uma estação terminal e outra são sempre os mesmos quarenta e um minutos.
Costumo dizer que entre São Leopoldo e o Mercado Público tudo o que existe é uma grande lacuna. Um vácuo. É quase uma alteração na relação espaço-tempo. Quando você vê chegou ao destino como se fosse um teletransporte. Enquanto você está lá, balançando sobre os trilhos, a consciência e a interação com o mundo ficam lá fora.
No metrô, trem, “trensurb”, ninguém conhece ninguém. Ou você segue a regra do anonimato ou você estará invariavelmente atrapalhando o transe coletivo. Por isso, olhe para a frente. Nada de ficar examinando o colega, mesmo se ele pegar o mesmo trem, no mesmo vagão que você, todos os dias. Se quiser ouvir música e usar óculos escuros, melhor ainda. Isso diminui a interferência. Metrô é você consigo mesmo. Leia alguma coisa. Ou durma. Mas não babe, pois saliva escorrendo causa uma comoção generalizada.
Se vai com um amigo, fale baixo. Nada de gargalhadas. Quer dizer, dificilmente alguém consegue ficar quarenta e um minutos gargalhando no metrô: a partir do décimo quinto você começa a ficar pensativo, contamidado pela imparcialidade dos colegas de vagão. Mas cuide, principalmente se você sobe em Canoas, quando todos já estão em transe. Se rir ou falar alto, todas as cabeças se voltam para você.
A inércia no metrô é tamanha, que fica difícil perceber movimento quando as portas abrem e fecham, a não ser dos que entram e saem. Ninguém move os olhos para saber com antecedência se terá de dividir o banco de seis lugares com sete pessoas. Ninguém olha ao redor a fim de ceder seu lugar a um idoso ou uma gestante, mesmo que esteja sentado no lugar reservado a eles.
Um dia um passageiro desmaiou durante a viagem. Só fui perceber quando a segurança metroviária entrou em uma estação e o trem ficou parado por um tempo maior do que o regular. Certamente alguém, discretamente, chamou a emergência. Discretamente. Para não abalar a paz do desconhecimento mútuo.
Quem sobe no metrô adere a um pacto imediatamente. O pacto de que, até a estação terminal, o melhor a fazer é garantir a paz e o isolamento de todos os passageiros. Em uma pequena lata onde todos se espremem, é melhor preservar a individualidade, ainda que extrema. Nada de conversas, no máximo murmúrios e cabeças enfiadas em um Diário Gaúcho.
“Estação terminal Mercado. Solicito a todos que desembarquem.”
É a hora de despertar. Como que sabendo do grande torpor que toma conta dos vagões, o maquinista lembra: “Ao desembarcar, não esqueça de seus objetos pessoais. Um bom dia a todos.”
Segue a multidão pelas ruas de Porto Alegre, finalmente de olhos abertos. Homens e mulheres agindo como se tivessem acabado de acordar, como se o tempo no metrô nada mais fosse do que um vazio no seu dia.
Nunca vi coisa que me trouxesse algum interesse sobre a boa e velha lata de sardinha, que vai e volta em linha reta, diariamente, umas dezenas de vezes.
É que os entediantes quarenta e um minutos entre uma estação terminal e outra são sempre os mesmos quarenta e um minutos.
Costumo dizer que entre São Leopoldo e o Mercado Público tudo o que existe é uma grande lacuna. Um vácuo. É quase uma alteração na relação espaço-tempo. Quando você vê chegou ao destino como se fosse um teletransporte. Enquanto você está lá, balançando sobre os trilhos, a consciência e a interação com o mundo ficam lá fora.
No metrô, trem, “trensurb”, ninguém conhece ninguém. Ou você segue a regra do anonimato ou você estará invariavelmente atrapalhando o transe coletivo. Por isso, olhe para a frente. Nada de ficar examinando o colega, mesmo se ele pegar o mesmo trem, no mesmo vagão que você, todos os dias. Se quiser ouvir música e usar óculos escuros, melhor ainda. Isso diminui a interferência. Metrô é você consigo mesmo. Leia alguma coisa. Ou durma. Mas não babe, pois saliva escorrendo causa uma comoção generalizada.
Se vai com um amigo, fale baixo. Nada de gargalhadas. Quer dizer, dificilmente alguém consegue ficar quarenta e um minutos gargalhando no metrô: a partir do décimo quinto você começa a ficar pensativo, contamidado pela imparcialidade dos colegas de vagão. Mas cuide, principalmente se você sobe em Canoas, quando todos já estão em transe. Se rir ou falar alto, todas as cabeças se voltam para você.
A inércia no metrô é tamanha, que fica difícil perceber movimento quando as portas abrem e fecham, a não ser dos que entram e saem. Ninguém move os olhos para saber com antecedência se terá de dividir o banco de seis lugares com sete pessoas. Ninguém olha ao redor a fim de ceder seu lugar a um idoso ou uma gestante, mesmo que esteja sentado no lugar reservado a eles.
Um dia um passageiro desmaiou durante a viagem. Só fui perceber quando a segurança metroviária entrou em uma estação e o trem ficou parado por um tempo maior do que o regular. Certamente alguém, discretamente, chamou a emergência. Discretamente. Para não abalar a paz do desconhecimento mútuo.
Quem sobe no metrô adere a um pacto imediatamente. O pacto de que, até a estação terminal, o melhor a fazer é garantir a paz e o isolamento de todos os passageiros. Em uma pequena lata onde todos se espremem, é melhor preservar a individualidade, ainda que extrema. Nada de conversas, no máximo murmúrios e cabeças enfiadas em um Diário Gaúcho.
“Estação terminal Mercado. Solicito a todos que desembarquem.”
É a hora de despertar. Como que sabendo do grande torpor que toma conta dos vagões, o maquinista lembra: “Ao desembarcar, não esqueça de seus objetos pessoais. Um bom dia a todos.”
Segue a multidão pelas ruas de Porto Alegre, finalmente de olhos abertos. Homens e mulheres agindo como se tivessem acabado de acordar, como se o tempo no metrô nada mais fosse do que um vazio no seu dia.
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